só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível eu quero
o outro
a palavra vive no papel com vírgulas hífens crases reticências leva uma vida reclusa de carmelita decalça corpo palavra o corpo aprender a ler na rua com manchetes de jornais jogadas na cara pelo vento com gírias palavrões zoando no ouvido com gritos sussurros impressos na pele palavra corpo a palavra quer sair de si a palavra quer cair no mundo a palavra quer soar por aí a palavra quer ir mais fundo a palavra funda a palavra quer a palavra fala: - eu quero um corpo ! corpo palavra o corpo sabe letras com gosto de carne osso unha e gente o corpo lê nas entrelinhas o corpo conhece os sinais o corpo não mente o corpo quer dizer o que sabe o corpo sabe o corpo quer o corpo diz: - fala palavra !!! palavracorpo corpopalavra
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio. Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade. Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo. Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão. Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei. Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço. Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção. E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.
Waldemar Henrique era filho de um descendente de portugueses e de indígenas. Depois de perder a mãe muito cedo, foi com o pai para Portugal, retornando ao Brasil em 1918. A partir de então viajou pelo interior da Amazônia,
época em que travou contato com os elementos da cultura e do folclore
amazônicos que seriam mais tarde característicos de sua obra musical.
A primeira música de sucesso de Waldemar Henrique foi Minha Terra, composta em 1923. Em 1929
estudou no Conservatório Carlos Gomes. Sua família era contra, e seu
pai insistiu para que ele se desviasse de sua vocação empregando-o num
banco.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1933, onde estudou piano, composição, orquestração e regência.
Suas obras têm principalmente como tema o folclore amazônico, indígena,
nortista e brasileiro. Waldemar Faleceu em 29 de Março de 1995 aos 90
anos vitima de Câncer